quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Preconceito

Ontem à noite, passeando com meu cachorro Frederico pelas ruas molhadas do centro, uma garota que estava na direção contrária puxou conversa. Afagou o cachorro, perguntou de que raça ele é e conversamos algumas amenidades.
Após alguns minutos, ela disse: "Adoro cachorro, mas não tenho porque fico o dia inteiro fora e ele iria sentir falta. E, também, passear por aqui é perigoso, não é?" Quando ia responder que não, que não é perigoso passear com o cachorro ali, ela começou a criticar o bairro e, pasmem, os nordestinos pela sujeira das ruas....
Não deu tempo de dizer à ela que a sujeira nas ruas não é culpa dos nordestinos e que, por ser filha de uma nordestina, achei aquele comentário de muito mal gosto e de um preconceito atroz. A moça em questão disparou a fazer comentários negativos ao povo nordestino e, quanto mais eu queria me desvencilhar daquele papo ignorante, mais ela falava absurdos.
É uma pena que o Frederico esteja tão mais calmo... Em outras épocas, quando ainda não tinha acertado os florais para baixar a sua ansiedade, eu poderia ter pedido a ele que desse uma boa mordida nas canelas da dita cuja. Porque, convenhamos, a mulher não sabe do que está dizendo.
Primeiro: os nordestinos são pessoas muito bem educadas e foram eles, ao lado dos imigrantes, principalmente os italianos, que ajudaram a construir, literalmente, a cidade de São Paulo. Segundo: a má-educação não é exclusividade dos nascidos em uma determinada região, ou Estado. É só andar pelos bairros mais ricos de São Paulo para ver os motoristas jogando lixo das janelas de seus carros, fechando outros motoristas e desrespeitando a faixa de pedestres. Terceiro: se o prefeito Kassab não tivesse cortado a verba para a limpeza, a cidade não teria tido tantos pontos de alagamento anteontem, após aquela chuva torrencial.
Portanto, o problema é muito mais complexo. Dizer que os bairros mais sujos de São Paulo são o Ipiranga e a Bela Vista e concluir que a culpa disso é a grande quantidade de nordestinos que mora nesses bairros (!) é construir uma equação doida, para falar o mínimo.
Estamos quase em 2010 e ainda sou obrigada a ouvir essas asneiras... Puxa, devia mesmo ter feito o Fred morder as canelas daquela infeliz.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

21 Gramas


Como lidar com a morte? Como superar a morte de uma pessoa muito querida? O filme "21 Gramas" fala exatamente sobre isso e de como as pessoas superam um acontecimento trágico. O filme mostra que cada um supera a morte como pode, de acordo com seus recursos internos - seja qual for a maneira como ela acontece, afinal a morte, mesmo que indolor, deixa um rastro de tristeza por onde passa. Uns a superam de maneira mais frágil, outros aparentemente mais fortes. Mas, a dor está ali, estampada na tela o tempo todo, estampada nos rostos dos personagens.
Assisti o filme na época do seu lançamento, em 2003, e recentemente, zapeando os canais, calhou que estava passando de novo. É um filme muito intenso, em que os personagens são carregados de emoção. Impossível assistir ao filme e não pensar na vida, em como se está vivendo, em como superamos as dificuldades do nosso dia-a-dia - maiores ou menores, mas que exigem superação.
"21 Gramas" conta a história de três famílias cujas trajetórias se encontram de maneira trágica. O professor universitário Paul (Sean Penn) é um cardíaco que vive com a mulher à espera de um transplante de coração. Christina (Naomi Watts) é uma dona de casa, ex-drogada, que vive de maneira pacata, ao lado do marido e duas filhas. Jack (Benício Del Toro) é um ex-alcóolatra, que foi preso algumas vezes, e que descobriu na religião a sua redenção e um meio onde encontrou forças para criar suas filhas e manter a esposa. Após um trágico acidente, os seus destinos serão interligados de maneira dramática. É complicado falar mais sobre o filme sem contar muito. Portanto, páro por aqui.
Além do roteiro muito bem amarrado, a maneira fragmentada como o filme é montado, em que enredos paralelos vão se juntando e se alternando é muito interessante. A cronologia dos acontecimentos é apresentada de forma embaralhada, aparentemente desconexa, o que prende a atenção do telespectador. O filme vai e volta no tempo várias vezes e mostra situações com um núcleo de personagens que acontecem paralelamente a outras situações com outros núcleos. Com o decorrer da história, vamos entendendo e montando o quebra-cabeça.
"21 gramas" é um filme muito denso, em que os personagens poderiam ser encontrados por aí nas ruas, no ambiente de trabalho e em nossas famílias, tamanha a proximidade da história com a vida real.
A atuação de Sean Penn é memorável. Depois de atuar em "Sobre Meninos e Lobos" - em que foi indicado como melhor ator - mas não levou a estatueta, em "21 Gramas" Sean Penn interpreta um personagem extremamente difícil. Ele seria o único que poderia, de certa forma, lucrar com o acidente, mas ele procura a dor, ele quer entender a dor da perda e ele quer vingá-la. Naomi Watts, descoberta por David Lynch em "A Cidade dos Sonhos" - outro filme que adorei e assisti diversas vezes, está mais madura em "21 Gramas". A maneira como ela expressa os sentimentos é impressionante. Só assistindo para entender.
E, Benicio Del Toro... Em "Snatch - Porcos e Diamantes", ele atua ao lado de Brad Pitt e proporciona muitos momentos cômicos; em "Sin City - A Cidade do Pecado", adaptação cinematográfica das histórias em quadrinhos de Frank Miller, sua atuação rendeu o prêmio de melhor ator em Cannes. Nesses dois, os personagens de Benicio são mais bem definidos, mais lineares. Em "21 Gramas", o ator faz um personagem mais dúbio, mas capta tão bem toda esta ambiguidade que não conseguimos ter raiva ou pena...
Benicio e Naomi foram indicados ao Oscar por suas atuações em "21 Gramas". Naomi como melhor atriz e Benicio como ator co-adjuvante. Mas, como a Academia sempre deixa a desejar, nenhum deles levou o prêmio. No entanto, o que importa é que esse filme é um dos melhores que assisti. Intenso e pertubador, "21 Gramas" realmente faz a gente pensar na vida e em como estamos aproveitando cada minuto dessa dádiva que é viver.

"Quantas vidas nós vivemos? Quantas vezes nós morremos? Acredita-se que perdemos 21 gramas no exato momento em que morremos, cada um de nós. Quanto pesam 21 gramas? Quando perdemos 21 gramas? Quanto de nós se perde? Quanto de nós é ganho? Quanto pesa 21 gramas? O peso de uma moeda de 5 centavos, de um beija-flor, de uma barra de chocolate? 21 gramas é o peso que seu corpo perde após a morte. 21 gramas. Será o peso da vida? 21 gramas. Será o peso da alma? Uma coisa é certa: a morte chega uma hora, você querendo ou não, mais cedo ou mais tarde." (frase do personagem de Paulo - Sean Penn)
Vale a pena assistir!


Curiosidades sobre o filme: * 21 gramas é o peso que o corpo perde no exato momento em que morremos. * O filme custou 21 milhões. * 21 Gramas é o 2º longa-metragem dirigido por Alejandro González-Iñárritu. O anterior foi Amores Brutos (2000).

Premiações:* Recebeu 2 indicações ao Oscar, nas categorias: Melhor Atriz (Naomi Watts) e Melhor Ator Coadjuvante (Benicio Del Toro).* Recebeu 5 indicações ao BAFTA, nas seguintes categorias: Melhor Ator (Sean Penn), Melhor Atriz (Naomi Watts), Melhor Ator Coadjuvante (Benicio Del Toro), Melhor Edição e Melhor Roteiro Original.* Recebeu uma indicação ao César de Melhor Filme Estrangeiro.* Ganhou o Volpi Cup de Melhor Ator (Sean Penn), o Prêmio Wella (Naomi Watts) e os prêmios de Melhor Ator - Voto Popular (Benicio Del Toro) e Melhor Atriz Voto Popular (Naomi Watts), no Festival de Veneza.* Recebeu uma indicação ao Grande Prêmio Cinema Brasil de Melhor Filme Estrangeiro.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

A dura realidade das ruas

Às terças-feiras sou obrigada a deixar o carro na garagem, pois é meu rodízio. Nesses dias, portanto, tenho um contato maior com a realidade das ruas, já que o carro é um meio de transporte que nos protege de um contato mais próximo com desconhecidos.
Ontem, ao voltar para casa, saindo do metrô, um menino de rua me chamou: "Tia!". Eu já ia metendo a mão no bolso para dar um dinheiro para ele. Mas, ele disse: "Não quero dinheiro, tia. Quero te pedir outra coisa". "O quê?", perguntei. "Queria que você comprasse um pacote de fraldas para meu irmãozinho... É número G."
Fiquei olhando para ele e disse que "tudo bem". Então, ele perguntou se eu queria a moeda de R$ 0,10 que ele tinha no meio dos dedos imundos. Disse que não precisava.
A imagem daquele menino, todo sujo, com as roupas rasgadas, o cabelo ensebado e os pés no chão numa noite fria e chuvosa foi de partir o coração. Fiquei imaginando como estaria o bebê que iria usar aquelas fraldas. Se estava com frio, se tinha água quente para o banho, se estava sendo bem alimentado, se a mãe o ninava antes de dormir...
Pior que isso tudo foi o sentimento de culpa. O meu cachorro Frederico, com certeza, é mais bem cuidado do que o bebê que agora está usando aquelas fraldas. Aliás, o Frederico, e muitos outros cachorrinhos, e gatinhos também, têm um tratamento melhor do que muitas crianças neste País.
É uma vergonha. E, infelizmente, não é um pacote de fraldas que vai mudar a vida daquela família.
foto: normandus303.wordpress.com