Antes que caia no esquecimento e que outros fatos mais relevantes tomem conta do nosso dia-a-dia, não posso deixar de mencionar minha perplexidade em relação ao acontecido com Geise, aluna da Uniban de Santo Bernardo do Campo (SP). O assunto foi amplamente comentado na imprensa durante mais de uma semana e só foi deixado de lado quando um apagão de energia elétrica parou 18 estados do Brasil e tomou conta dos noticiários.
A garota usava uma minissaia rosa, curtíssima e baratinha quando se dirigia para as aulas do curso de turismo no período da manhã. Logo na entrada da faculdade ela foi abordada por vários colegas que a chamavam por palavrões. A confusão tomou ares de linchamento quando cerca de 700 alunos, garotos e garotas de 20 anos (!), reuniram-se nos corredores para xingá-la. Geise só conseguiu sair de lá escoltada por policiais.... Se não fossem eles, os policiais, ela teria sido linchada, ou estuprada.
O que será que passa na cabeça desses jovens tão intolerantes ao modo de vestir de uma colega? Não vou nem perder tempo sobre a questão da falta de bom senso da garota que vestiu uma minissaia curtíssima e justíssima para assistir uma aula. O que me impressiona mesmo é a atitude dos colegas. Estamos em 2010, quase 50 anos após o surgimento do movimento feminista e várias décadas vivendo sob o regime de democracia no Brasil.... Não entendo tamanho retrocesso no comportamento dos jovens. Na década de 70, essa garota teria sido aplaudida em pé pelos colegas ao ir para uma aula de minissaia.
Muitos falam que ela se comportava de maneira vulgar... Oras, quantas e quantas garotas que saem nuas na revista Playboy são vulgares e nem por isso as revistas deixam de ser vendidas. Quantas e quantas mulheres desfilam praticamente nuas no Carnaval e ninguém está preocupado se são vulgares ou não. Quantas e quantas mulheres saem de minissaias nas capas de revistas femininas e masculinas desse País e essas revistas vendem como água.
Outros dizem que ela praticamente desfilou de minissaia e fez um percurso mais longo até chegar na sala de aula, como se um belo par de pernas fosse para ficar escondido... Meu Deus (!), agora vão proibir mulheres de minissaia de andarem por onde querem e fazerem o percurso que lhes convêm?
O acontecido só vem mostrar o quanto a sociedade brasileira é machista e hipócrita. Um País tropical, onde as mulheres praticamente andam peladas nas praias, deveria ser mais amadurecido no quesito tolerância. Os garotos e garotas da Uniban agiram daquela maneira pois Geise não vem de família rica e, por ser pobre, sentiram-se no direto de cortar as suas asinhas, ou melhor, perninhas. E se ela fosse negra? Eles teriam coragem de agir daquela maneira e serem tachados de racistas?
Uma sociedade erotizada, em que propagandas de cerveja e de carros dão sempre um jeito de colocar mulheres seminuas para aumentar as vendas de seus produtos, não aceita que uma garota esteja apenas confirmando o que ela mesma vê nos jornais e revistas? É incompreensível. É uma volta aos tempos das cavernas. Apoiar a atitude daqueles garotos e garotas é quase como aplaudir o fascismo e seu criador, Benito Mussolini.
Para mim, o incidente foi um grande estupro coletivo e imaginário. Todos ali sentiram-se ameaçados pelo par de pernas roliças e queriam rechaçá-la, apagar sua imagem para que ela os amedrontasse menos.
Mas, como toda ação tem uma reação, a moça ainda saiu ganhando - se é que dá para sair ganhando de uma situação dessas... Já recebeu convites para posar nas revistas Sexy e Playboy, está aparecendo em tudo que é programa de TV e ainda vai estrelar em um comercial de lingerie. É... a mídia não perde tempo e o acontecido está virando uma tragicomédia.


